quinta-feira, 22 de abril de 2010

Papai, o que significa precoce?


Infância, eu tenho saudades da minha. É algo até nostálgico. Como seria bom se aquele carro, o Delorium do filme “De volta para o futuro” fosse de verdade. Se agente pudesse voltar para o passado novamente. Não só para corrigir nossos erros, mas pra viver momentos únicos de novo, momentos esses que agente nem sábia que seriam únicos e que marcariam nossas vidas. Para mim particularmente, eles estão ligados à minha infância. Como seria bom rever os amigos, os lugares, sentir o cheiro da praçinha pela manhã ou do bolo de fubá que minha mãe fazia, ouvir os sons... Bem, para mim, jogar futebol, taco, brincar de pick esconde, jogar bolinhas de gude, ou brincar de pega-pega faziam parte da minha “rotina” diária. Soltar pipa, assistir despreocupadamente desenhos animados, Chaves, Chapolim Colorado. Como foram maravilhosos meus tempos de moleque! Eu não falei que era um pouco nostálgico?

Tenho me preocupado com o tipo de educação que os pais da nossa geração estão usando para com os seus filhos. Apesar de eu não ser pai, tenho visto alguns distúrbios que esse tipo de educação provoca em diversas crianças de todas as classes sociais. “O crescimento precoce.”

É certo que o mundo está mudando cada vez mais rápido. Mas nem todas as transformações que vemos no dia a dia são positivas. É comum nas grandes cidades, por exemplo, você entrar num shopping ou em qualquer outro lugar público e ver meninas de seis, sete anos, vestidas como mulheres. Às vezes até meninas mais novas do que isso usando maquiagem e sapato de salto alto. Muitos pais não só permitem como incentivam esta atitude.

Pode parecer ”bonitinho” num primeiro momento, mas os pais não percebem que esta atitude pode interferir no ciclo natural de amadurecimento das crianças. Para piorar, a vida de algumas crianças parece a de pequenos executivos, com tantas atividades cotidianas que não sobra tempo para brincar ou descansar, o que é muito importante nesta fase da vida.

Segundo a psicóloga Lúcia Magano, psicoterapeuta corporal de crianças do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo (IABSP), uma agenda atribulada de funções não é o melhor presente que os pais poderiam dar aos filhos, apesar de acreditarem nisso. “A maioria das crianças passa a infância sem tempo para descansar e brincar. São forçados a um amadurecimento precoce para assumir comportamento dos adultos e a conseqüência disso é justamente o stress.”

As dinâmicas das famílias também não favorecem as crianças. Para a doutora os pais, muito atarefados e cansados, terceirizam suas funções com babás e cada dia mais têm menos tempo para olhar cuidadosamente a rotina das crianças. Na visão da especialista, que trabalha com análise bioenergética, o stress é uma reação de adaptação do organismo frente a situações difíceis ou excitantes do meio ambiente.
“O stress é gerado diante de estímulos ameaçadores que o corpo recebe. Pensando em Wilhem Reich e Alexander Lowen, que norteiam meu trabalho dentro da Analise Bioenergética, todo ser vivo é dotado de uma carga energética que tem circulação pulsante e metabolismo próprio. A criança não é uma exceção.”

Lúcia explica que a circulação dessa carga no organismo deve acontecer livremente. “Quando o fluxo energético é bloqueado nela, a criança se distancia das sensações do corpo, das emoções, do seu mundo interno e, conseqüentemente, do mundo externo. Como no caso do stress infantil.”

Vários fatores podem desencadear o stress infantil. Alguns exemplos são morte em família, brigas constantes ou separação dos pais, mudança de cidade ou escola, professores inadequados, nascimento de irmãos, pressão par ter boas notas, excesso de estímulos, violência e agressão social.

“O stress pode se manifestar através de sintomas físicos ou psicológicos. O problema é que muito freqüentemente os pais não sabem reconhecer que seu filho está estressado”, afirma a doutora. “Ao mesmo tempo, nenhum sintoma isolado pode ser interpretado como stress. É importante verificar se vários sintomas estão ocorrendo juntos”.

Na criança, os sinais físicos podem ser dor de barriga, diarréia, tique nervoso, dor de cabeça, náuseas, hiperatividade, dentes que rangem, falta de apetite e tensões musculares. Os sintomas psicológicos podem ser terror noturno, introversão súbita, medo ou choro excessivo, agressividade, impaciência, pesadelos, queda do rendimento escolar e falta de concentração.

Segundo a psicóloga, uma possibilidade de evitar o stress é levarmos a criança para o mundo dela, para as brincadeiras, levar a sério o brincar de uma criança. “O brincar significa o reencontro com o prazer, uma possibilidade de a criança descarregar medos, culpas, ansiedades e emoções. O brincar é a expressão mais importante da criança”.

Mesmo com as tentativas dos pais, se o stress se cronificar e os sintomas persistirem, outra possibilidade, diz Lúcia Magano, é a terapia onde através do brinquedo se da a intervenção do processo psíquico corporal da criança.

Sigamos então o conselho da Palavra de Deus que nos ensina a respeitar as fases da vida em sua ordem, sem jamais pular alguma.

1Co 13.11 Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança.

MT 19.14 Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos céus.

Bruno Alarico

domingo, 18 de abril de 2010

Confissões de um jovem pastor!


Confissões de um jovem pastor

Rev. Marcelo Gomes
Fonte: www.institutojetro.com.br

Confesso que sou jovem demais para um texto de confissões. Ainda que seja curto e sem maiores implicações. Não sei se é prudente. Agostinho escreveu as suas já com alguma maturidade, aos 43 anos de idade, aproximadamente. Considerava-as muito mais uma iniciativa de adoração que de culpa ou auto-exposição. Talvez por isso eu tenha criado coragem: não quero considerá-las qualquer biografia ou descrição de trajetória pessoal, mas uma declaração de fraqueza que honre a Deus e ajude outros, sobretudo os que sentem como senti em vários momentos dessa breve história pastoral.

Confesso que não tinha idéia do peso que acompanha o ministério pastoral. Não apenas aquele que resulta dos sofrimentos em geral, participados pelas pessoas ao pastor em quem confiam e que com elas também sofre, mas aquele que, infinitamente mais pesado, resulta exatamente desta confiança, que faz com que nos vejam como líderes que não somos, cheios daquelas qualidades idealizadas que não temos. Superam-nos, em busca do “pastor”. Não lhes importa nossa juventude; não porque desprezam-na, mas porque não lhes comunica o que deveria. Chamam-nos “pastor” e “senhor”, mesmo que poderiam ser nossos pais. Confiam-nos suas almas de imediato, embora demoremos para nos perguntar: quem somos nós – ou o que temos nós – para cuidarmos de tantas?

Confesso que almejava o lado aparentemente mais glamouroso do ministério pastoral. Acreditava não haver nada mais entusiasmante que a pregação, até começar a lidar com sua real dificuldade: o que dizer, semanalmente, a um mesmo povo, que torna-se cada dia mais exigente e com memória cada vez mais fiel. Erasmo de Rotterdam diria: “odeio o ouvinte de memória fiel”. Cri que daria conta, tranqüilo, dos aconselhamentos, até começar a perceber que o problema das pessoas não é a ignorância sobre as soluções disponíveis, mas uma infinidade de medos a que não temos acesso, senão com muita paciência, acolhimento e amor. Acreditava que organizaria facilmente os ministérios e departamentos da igreja, conforme os muitos manuais à disposição para qualquer tipo de visão eclesiástica, até que comecei a perceber que não é organização que falta à igreja, mas comprometimento.

Confesso que me vi sozinho inúmeras vezes. Encontrei mais concorrentes que amigos entre aqueles que, como eu, lançaram-se ao desafio do ministério. Comportei-me também, muitas vezes, como um competidor, em busca da maior igreja, da mais numerosa membresia, da maior arrecadação e dos melhores contribuintes. Alimentei certa inveja, quando tais resultados se faziam presentes no arraial do colega. Embora tenha sido politicamente correto, sem jamais ultrapassar certos limites éticos e de convivência, reconheço que Deus sabe o que passou em meu coração nessa complicada área das realizações e dos resultados. Chorei diante Dele, mas não pude compartilhar minhas dores. Demorei para encontrar em quem confiar, pessoas que não exporiam meus dramas juvenis para minar as bases de meu pastorado.

Confesso que, desde o começo, faltaram referenciais mais sólidos para a construção de meu caráter. Não somente morais, pois que não foram poucos os escândalos que vi envolvendo pastores e líderes, mas inclusive de paciência e incentivo. Por que os mais velhos não podem relevar a mocidade dos mais novos? Por que exigem tanto? Olham-nos com evidente desconfiança, enciumados, afastando-nos de si mesmos e de seus ambientes de poder ou influência. Não poderiam ensinar-nos? Compartilhar conosco suas experiências e descobertas? Poupar-nos dos mesmos erros que cometeram, para que possamos cometer erros novos? Confesso que precisei de guias mais confiáveis e amorosos, dispostos a abençoar meu ministério sem que desejem se impor sobre mim ou desqualificar-me diante das ovelhas que Deus mesmo me confiou.

Confesso, depois de não muitos anos, que não tenho as respostas que achava ter, lá no começo. Há muitas frustrações e desilusões reservadas para os pastores. Pensei em desistir e, às vezes, até hoje, ainda penso. Creio que Karl Barth tem razão quando diz que “os apóstolos e profetas não querem ser o que são; eles têm de ser. E, todavia, eles são”. Agora entendo quando Tiago orienta a que não muitos de nós aspirem ser mestres. Identifico-me com Jeremias, quando derrama-se diante de Deus, seduzido pela vocação e apavorado com suas implicações, oscilando entre o não querer falar e a percepção de um fogo que o queima até que fale. Deus é um fogo consumidor. Não nos queima por que não somos o que quer que sejamos, mas até que o sejamos. E, assim, vamos de dor em dor, de luta em luta, de fé em fé.

Mas confesso que, apesar de toda angústia envolvida, é maravilhoso estar onde se crê ser a vontade de Deus. O resultado que vale é um coração confiante na graça de Cristo e na vitória de Sua cruz. O caminho Dele também não foi fácil. Oposições, acusações, traições e negações de toda ordem marcaram sua trajetória terrena. Deus, porém, o exaltou sobremaneira, dando-lhe um nome acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre. A começar pelos nossos joelhos de pastores, nem sempre tão prontos a encontrar o solo da oração e do quebrantamento. Jesus é nosso modelo. Sua humildade e obediência, nossa meta. Seu Espírito, nossa força. Deus é fiel. Cuida de nós e supre nossas carências. Sem falar nas pessoas que levanta para, contra tudo e contra todos, nos abençoar. No fim das contas, são muitas. Não esperam nada em troca e dão-nos o melhor de seus corações. Renovam-nos a esperança e a disposição para seguir em frente. São verdadeiras dádivas, amigos mais chegados que irmãos.